Ainda sinto o
vento frio de inverno rasgar-me a cara, o chão ainda recebe as minhas passadas
por mais pesadas que sejam. É como se andasse mas não fosse a lado nenhum. Não
tenho o controlo sobre os músculos que se entranham na pele, e quando dou por
mim já o cântaro se dirigiu ao riacho. É inevitável. A cara pálida que só
encontrou uma única expressão parece vazia, um fantasma do que foi deixado para
trás. Olho e caminho mas perco-me em pensamentos. O mundo é vago, sem cores,
sem cheiros. Toda a gente sorri e conversa sobre assuntos divertidos, enquanto
o que resta de mim simplesmente observa. Não me enquadro. O que os meus olhos
opacos conseguem ver são formas destorcidas, fantasmas. Criaturas perfeitas que
me olham com espectativa continuada. Por fim consigo traçar uma linha nos
lábios e tudo fica bem. Quero andar, correr até ter os pés em sangue. Quero
sair daqui! Presa estou, num jogo de xadrez á espera da próxima jogada. Espera
demorada que nunca se vê acabada. Sinto-me exausta. Do aeroporto até aqui nada
mudou, a criatura assustada ainda corre nas veias deste corpo magoado. Queria
nega-lo mas é como se a história se repetisse. Chego a pensar que nunca se
curou o veneno que percorre a alma. O veneno apenas continua vivo, e não deixou
o recipiente tal como eu pensara que deixasse. Alguma vez conseguirei deitar
este frasco fora? Alguma vez serei verdadeiramente eu, sem máscaras ou
sentimentos escondidos? Onde está o antidoto para este bicho que me consome a
carne? Será possível invocar as parcas? E na dúvida fico no meio do regato.
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