quarta-feira, 2 de maio de 2012

Regato

Ainda sinto o vento frio de inverno rasgar-me a cara, o chão ainda recebe as minhas passadas por mais pesadas que sejam. É como se andasse mas não fosse a lado nenhum. Não tenho o controlo sobre os músculos que se entranham na pele, e quando dou por mim já o cântaro se dirigiu ao riacho. É inevitável. A cara pálida que só encontrou uma única expressão parece vazia, um fantasma do que foi deixado para trás. Olho e caminho mas perco-me em pensamentos. O mundo é vago, sem cores, sem cheiros. Toda a gente sorri e conversa sobre assuntos divertidos, enquanto o que resta de mim simplesmente observa. Não me enquadro. O que os meus olhos opacos conseguem ver são formas destorcidas, fantasmas. Criaturas perfeitas que me olham com espectativa continuada. Por fim consigo traçar uma linha nos lábios e tudo fica bem. Quero andar, correr até ter os pés em sangue. Quero sair daqui! Presa estou, num jogo de xadrez á espera da próxima jogada. Espera demorada que nunca se vê acabada. Sinto-me exausta. Do aeroporto até aqui nada mudou, a criatura assustada ainda corre nas veias deste corpo magoado. Queria nega-lo mas é como se a história se repetisse. Chego a pensar que nunca se curou o veneno que percorre a alma. O veneno apenas continua vivo, e não deixou o recipiente tal como eu pensara que deixasse. Alguma vez conseguirei deitar este frasco fora? Alguma vez serei verdadeiramente eu, sem máscaras ou sentimentos escondidos? Onde está o antidoto para este bicho que me consome a carne? Será possível invocar as parcas? E na dúvida fico no meio do regato.

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